Lançamento de livro

Transparência pública opacidade privada:

o Direito como instruemento de limitação do poder na sociedade de controle

de Túlio Vianna

Capa

Transparência pública, opacidade privada convida o leitor a lançar um olhar crítico sobre as câmeras de vigilância espalhadas por ruas, avenidas, praças, lojas, shoppings centers, edifícios e tantos outros lugares públicos monitorados.

O panopticismo, retratado por Michel Foucault no seu clássico “Vigiar e Punir”, segregava os socialmente indesejados para vigiá-los e discipliná-los. Este livro trata de um modelo de controle social diferente, no qual não mais se segrega para vigiar, mas em que se vigia para segregar.

Partindo de uma análise histórica dos censos nazistas que identificaram os judeus na população alemã para só então segregá-los e dizimá-los, o autor alerta para os perigos de uma vigilância eletrônica no século XXI, cujos alvos seriam pobres, estrangeiros, negros e outras minorias políticas a serem rotuladas como criminosas e, portanto “inimigas da sociedade”.

O livro é uma crítica contundente ao chamado “direito penal do inimigo”, não só em sua formulação dogmática, mas principalmente em seus pressupostos sociológicos. Nesse sentido, o direito à privacidade assume uma posição estratégica na tutela de outros direitos fundamentais, tornando-se garantia contra vigilância e rotulação estatal, que tendem a se fixar nos estratos sociais mais frágeis, gerando ainda mais segregação.

O autor propõe uma reconstrução do garantismo jurídico, não mais fundando-o em uma garantia da norma contra o arbítrio, mas na máxima transparência dos atos da administração pública e no inexorável respeito à privacidade como garantia individual contra a vigilância seletiva estatal.

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Julho 9, 2007 at 10:38 pm 2 comentários

09 F9 11 02 9D 74 E3 5B D8 41 56 C5 63 56 88 C0

Li no Orkut que:

Uma seqüência hexadecimal está criando o maior rebuliço na web e no mundo da mídia de massa: 09 F9 11 02 9D 74 E3 5B D8 41 56 C5 63 56 88 C0. Por causa dela mundos e fundos estão sendo levantados para impedir, em vão, sua publicidade. Trata-se da chave criptográfica que quebra o sistema AACS (Advanced Access Content System) dos HD-DVD e do Blu-Ray com filmes e jogos com imagem de alta definição. Com eles vc pode ver os mais recentes títulos de qualquer mídia, pois eles são a chave que abre a porta artificialmente trancada. [http://www.techbits.com.br/2007/05/02/o-codigo-da-discordia/]

Quando Muslix64 criou o patch do Blu-Ray era apenas uma iniciativa individual. Mas a turma do Doom9 – eu amo esses caras – criou um gerador de chave que funciona tanto no HD-DVD, quanto no Blu-Ray. [http://uscpwned.blogspot.com/2007/02/holy-grail-located-hd-dvd-and-blu-ray.html] E a divulgação da chave se alastra como um virus pela web desde que os blogs se viram compelidos pelo ACSS a tirar a informação do ar pq estavam divulgando a chave. [http://www.boingboing.net/2007/04/30/aacs_drm_body_censor.html] Como no caso da chave do DVD – a famigerada CSS – a reação da indústria de massa provocou uma insurreição na rede. Desenhos, fotos, camisetas, música e o q mais vc puder imaginar estão sendo utilizados para divulgar essa chave mestra criptográfica que abre qualquer porta. A música feita por Keith Burgon cantando o código com sua guitarra acústica, conhecida como Oh Nine, Efe Nine já é um hit no YouTube. [http://www.youtube.com/watch?v=L9HaNbsIfp0]

As indústrias de massa continuam tão estúpidas quanto antes. Como os imperadores antes de sua decapitação, são incapazes de aprender qualquer coisa. E Lehman, [http://en.wikipedia.org/wiki/Bruce_Lehman] o pai de toda essa excrescência, parece ser a única pessoa sensata quando disse que o DMCA estva morto no Digital Dystopia da McGill. [http://www.archive.org/details/bongboing.mcgill]

O fato das empresas empalidecerem, mandando seus gerentes apagar o código à força dos blogs e dos sítios onde são publicados gerou uma outra insurreição. [http://www.nytimes.com/2007/05/03/technology/03code.html?_r=1&oref=slogin] Pois quanto mais se apagava o código, mais ele se multiplicava; como uma espécie ameaçada de extinção. Com sua divulgação aqueles discos Blu-Ray e HD-DVD estão desprotegidos. A criptografia da indústria de massa sempre será falha e porca, porque seus segredos tornaram-se de polichinelo na era da multidão.

Um efeito colateral curioso foi a revolta do DIGG. [http://www.digg.com] Rede social de notícias, o site ameaçado de processo pela AACs, começou a apagar as publicações do código. Mas no DIGG as pessoas publicam, votam e definem o que é importante para ir à página principal. Os usuários se auto-regulam e intervenções externas acabam causando coisas estranhas, facilmente percebidas pela comunidade. Os usuários reagiram ao apagamento sistemático e inventaram uma “bomba” que fazia com que qualquer matéria da primeira página remetesse ao código proibido. Ao final do dia o fundador do sítio, Kevin Rose, [http://blog.digg.com/?author=3] reconsiderou a insanidade da exigência e publicou o código em seu próprio perfil, [http://blog.digg.com/?p=74] liberando a publicação dele no DIGG, junto com uma declaração de que aquela comunidade havia decidido que preferia ver o Digg cair lutando (contra a lei) do que vêlo dobrando-se frente a uma companhia maior. Ele termina dizendo: Se perdermos, que diabos, pelo menos morremos tentando. O fato é que o processo contra uma rede como o Digg facilmente pode se tornar um tiro que sai pela culatra contra a ACSS e demais leis assemelhadas. Sendo um sítio governado e mantido por gente de mídia, uma campanha por fundos para o processo e de mobilização contra as indústrias pode ser o rastilho de uma incontrolável explosão, como lembra o Mashable. [http://mashable.com/2007/05/01/digg-lawsuit]

Já há quem compare toda essa movimentação com a carta impressa de Lutero pregada na porta da Igreja, que desencadeou a Reforma. Ela marcou a entrada em cena do poder da imprensa na sociedade e o poder da consciência individual na formação da massa. Poder este que gerou a mídia de massa e os formadores de opinião. A guerra do código [http://uscpwned.blogspot.com/2007/02/holy-grail-located-hd-dvd-and-blu-ray.html] que quebra a criptografia do HD-DVD e do Blu-Ray marca a afirmação dos que se envolvem com as práticas das mídias digitas como cidadãos digitais, e não mais consumidores. [http://www.downloadsquad.com/2007/05/01/hd-dvd-key-fiasco-is-an-example-of-21st-century-digital-revolt]

Maio 4, 2007 at 10:51 am 1 comentário

O Celular do Marceneiro

Encaminharam-me por email esta bela sentença do juiz de direito Gerivaldo Alves Neiva cujo trabalho até então não conhecia. Não é da área criminal, mas por certo agradará aos leitores deste site que desejam uma justiça mais humana e menos desigual.

Processo Número: 0737/05 Quem pede: José de Gregório Pinto Contra quem: Lojas Insinuante Ltda, Siemens Indústria Eletrônica S.A e Starcell

Ementa: UTILIZAÇÃO ADEQUADA DE APARELHO CELULAR. DEFEITO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DO FABRICANTE E DO FORNECEDOR .

Sentença:

Vou direto ao assunto.

O marceneiro José de Gregório Pinto, certamente pensando em facilitar o contato com sua clientela, rendeu-se à propaganda da Loja Insinuante de Coité e comprou um telefone celular, em 19 de abril de 2005, por suados cento e setenta e quatro reais.

Leigo no assunto, é certo que não fez opção por fabricante. Escolheu pelo mais barato ou, quem sabe até, pelo mais bonitinho: o tal Siemens A52. Uma beleza!

Com certeza foi difícil domar os dedos grossos e calejados de marceneiro com a sensibilidade e recursos do seu Siemens A52, mas o certo é que utilizou o aparelhinho até o mês de junho do corrente ano e, possivelmente, contratou muitos serviços. Uma maravilha!

Para sua surpresa, diferente das boas ferramentas que utiliza em seu ofício, em 21 de junho, o aparelho deixou de funcionar. Que tristeza: seu novo instrumento de trabalho só durou dois meses. E olha que foi adquirido legalmente nas Lojas Insinuante e fabricado pela poderosa Siemens….. Não é coisa de segunda-mão, não! Consertado, dias depois não prestou mais… Não se faz mais conserto como antigamente!

Primeiro tentou fazer um acordo, mas não quiseram os contrários, pedindo que o caso fosse ao Juiz de Direito. Caixinha de papelão na mão, indicando que se tratava de um telefone celular, entrou seu Gregório na sala de audiência e apresentou o aparelho ao Juiz: novinho, novinho e não funciona. De fato, o Juiz observou o aparelho e viu que não tinha um arranhão.

Seu José Gregório, marceneiro que é, fabrica e conserta de tudo que é móvel. A Starcell, assistência técnica especializada e indicada pela Insinuante, para surpresa sua, respondeu que o caso não era com ela e que se tratava de “placa oxidada na região do teclado, próximo ao conector de carga e microprocessador”.

Seu Gregório: o que é isto? Quem garante? O próprio que diz o defeito, diz que não tem conserto…. Para aumentar sua angústia, a Siemens disse que seu caso não tinha solução neste Juizado por motivo da “incompetência material absoluta do Juizado Especial Cível – Necessidade de prova técnica.”

Seu Gregório: o que é isto? Ou o telefone funciona ou não funciona! Basta apertar o botão de ligar. Não acendeu, não funciona. Prá que prova técnica melhor?

Disse mais a Siemens: “o vício causado por oxidação decorre do mau uso do produto”.

Seu Gregório: ora, o telefone é novinho e foi usado apenas para falar. Para outros usos, tenho outras ferramentas. Como pode um telefone comprado na Insinuante apresentar defeito sem solução depois de dois meses de uso?

Certamente não foi usado material de primeira. Um artesão sabe bem disso.

O que também não pode entender um marceneiro é como pode a Siemens contratar um escritório de advocacia de São Paulo, por pouco dinheiro não foi, para dizer ao Juiz do Juizado de Coité, no interior da Bahia, que não vai pagar um telefone que custou cento e setenta e quatro reais? É, quem pode, pode!

O advogado gastou dez folhas de papel de boa qualidade para que o Juiz dissesse que o caso não era do Juizado ou que a culpa não era de seu cliente! Botando tudo na conta, com certeza gastou muito mais que cento e setenta e quatro para dizer que não pagava cento e setenta e quatro reais! Que absurdo! A loja Insinuante, uma das maiores e mais famosas da Bahia, também apresentou escrito de advogado, gastando sete folhas de papel, dizendo que o caso não era com ela por motivo de “legitimatio ad causam”, também por motivo do “vício redibitório e da ultrapassagem do lapso temporal de 30 dias” e que o pobre do seu Gregório não fez prova e então “allegatio et non probatio quasi non allegatio”.

E agora seu Gregório? Doutor Juiz, disse Seu Gregório, a minha prova é o telefone que passo às suas mãos! Comprei, paguei, usei poucos dias, está novinho e não funciona mais! Pode ligar o aparelho que não acende nada! Aliás, Doutor, não quero mais saber de telefone celular, quero apenas meu dinheiro de volta e pronto!

Diz a Lei que no Juizado não precisa advogado para causas como esta. Não entende seu Gregório porque tanta confusão e tanto palavreado difícil por causa de um celular de cento e setenta e quatro reais, se às vezes a própria Insinuante faz propaganda do tipo: “leve dois e pague um!” Não se importou muito seu Gregório com a situação: um marceneiro não dá valor ao que não entende! Se não teve solução na amizade, Justiça é para isso mesmo! Está certo Seu Gregório: O Juizado Especial Cível serve exatamente para resolver problemas como o seu. Não é o caso de prova técnica: o telefone foi apresentado ainda na caixa, sem um pequeno arranhão e não funciona. Isto é o bastante! Também não pode dizer que Seu Gregório não tomou a providência correta, pois procurou a loja e encaminhou o telefone à assistência técnica. Alegou e provou!

Além de tudo, não fizeram prova de que o telefone funciona ou de que Seu Gregório tivesse usado o aparelho como ferramenta de sua marcenaria. Se é feito para falar, tem que falar! Pois é Seu Gregório, o senhor tem razão e a Justiça vai mandar, como de fato está mandando, a Loja Insinuante lhe devolver o dinheiro com juros legais e correção monetária, pois não cumpriu com sua obrigação de bom vendedor. Também, Seu Gregório, para que o Senhor não se desanime com as facilidades dos tempos modernos, continue falando com seus clientes e porque sofreu tantos dissabores com seu celular, a Justiça vai mandar, como de fato está mandando, que a fábrica Siemens lhe entregue, no prazo de 10 dias, outro aparelho igualzinho ao seu. Novo e funcionando! Se não cumprirem com a ordem do Juiz, vão pagar uma multa de cem reais por dia! Por fim, Seu Gregório, a Justiça vai dizer à assistência técnica, como de fato está dizendo, que seu papel é consertar com competência os aparelhos que apresentarem defeito e que, por enquanto, não lhe deve nada.

À Justiça ninguém vai pagar nada. Sua obrigação é fazer Justiça! A Secretaria vai mandar uma cópia para todos. Como não temos Jornal próprio para publicar, mande pelo correio ou por Oficial de Justiça. Se alguém não ficou satisfeito e quiser recorrer, fique ciente que agora a Justiça vai cobrar. Depois de tudo cumprido, pode a Secretaria guardar bem guardado o processo!

Por último, Seu Gregório, os Doutores advogados vão dizer que o Juiz decidiu “extra petita”, quer dizer, mais do que o Senhor pediu e também que a decisão não preenche os requisitos legais. Não se incomode. Na verdade, para ser mais justa, deveria também condenar na indenização pelo dano moral, quer dizer, a vergonha que o senhor sentiu, e no lucro cessante, quer dizer, pagar o que o Senhor deixou de ganhar. No mais, é uma sentença para ser lida e entendida por um marceneiro..

Conceição do Coité, 21 de setembro de 2005

Gerivaldo Alves Neiva,

Juiz de Direito

Fevereiro 21, 2007 at 9:05 am 15 comentários

Direito à fofoca?

Assisti ao vídeo com o flagrante da relação amorosa entre a atriz Daniela Cicarelli e o empresário Renato Malzoni Filho, em uma praia no sul da Espanha, logo que ele foi divulgado na Internet em setembro de 2006. Os primeiros 100 segundos mostram os namorados trocando beijos, abraços e carinhos na presença de outros banhistas que não demonstram dedicar-lhes qualquer atenção especial. A edição e as legendas procuram enfatizar o caráter erótico da cena em detrimento do amoroso. Após o centésimo segundo, abruptamente os banhistas desaparecem, a legenda anuncia “La pareja busca intimidad” (o casal busca intimidade) e uma cena mostra o casal caminhando pela praia. Não se sabe ao certo quanto tempo caminham (1 minuto? 1 hora?); não se sabe ao certo o quanto se afastam dos banhistas. Trocam carícias mais ousadas. Novo corte na edição: sai a música de fundo e entra o que se supõe ser o som ambiente. O casal agora está no mar, não se sabe o quão distante da areia, mas as bóias ao fundo indicam que afastaram-se bastante. Dificilmente a cena poderia ser captada pelo zoom das lentes de câmeras amadoras, mas o zoom de um equipamento profissional permite flagrar a dupla se relacionando sexualmente na água. O filme termina com o casal retornando à areia e um abrupto corte nos 15 segundos finais leva-os de volta instantaneamente para junto dos banhistas, sugerindo que estes sempre estiveram por perto.

Julguei que o vídeo não faria sucesso na Internet por não ser nada explícito. Diria mais: comportado demais, se comparado à diversidade de conteúdo pornográfico que pode ser encontrado na rede. Pueril engano. O vídeo não só fez um sucesso estrondoso como despertou um sentimento muito diverso daquele que eu, na minha ingenuidade, acreditava ser o foco da questão: as pessoas não assistiram ao vídeo para se excitarem com a ousadia amorosa do casal, mas para julgá-los. Julgá-los por quê?

Em rigor, Daniela e Renato não praticaram qualquer crime. Ainda que, tanto a legislação brasileira quanto a espanhola punam atos ofensivos ao pudor público, para que se possa caracterizar o crime é imprescindível que quem presencie a cena tenha seu pudor ofendido. Como nenhum banhista daquela praia reclamou ou mesmo notou as peripécias do casal naquele dia, certo é que crime não houve.

Sigmund Freud em seu livro “Totem e Tabu” ensina que o fundamento da punição social pela violação de um tabu reside no risco da imitação. “Se a violação não fosse vingada pelos outros membros, eles se dariam conta de desejar agir da mesma maneira que o transgressor.” A repercussão do vídeo na Internet não se deu pelo pudor violado de quem assistiu as cenas inadvertidamente na Internet, mas pela identificação dos internautas com os protagonistas: é preciso punir o casal com a execração pública para garantir o regozijo de todos que cotidianamente reprimem seus instintos sexuais nas praias e retornam às suas casas e hotéis para extravasá-los.

Daniela e Renato estão sendo massacrados pela mídia difusa, com a complacência da mídia institucional, por terem desafiado um tabu. Um verdadeiro linchamento moral em rede internacional de computadores.

O argumento pueril de que a mídia tem liberdade e até dever de informar esconde o verdadeiro direito que se pretende tutelar em casos como este: o direito à fofoca. A liberdade de imprensa tem por fundamento o interesse público na informação. Vídeos como este não cumprem qualquer função pública de informar, pelo simples fato de que não há qualquer interesse público em se saber onde, como ou com quem Daniela Cicarelli mantém relações sexuais. Ao optar por satisfazer a curiosidade quanto à vida pessoal de celebridades, a mídia abandona sua função basilar no Estado Democrático de Direito de instrumento de informação de questões de interesse público e se converte em uma velha fofoqueira com recursos tecnológicos de última geração.

A sutil diferença entre informar e fofocar só pode ser plenamente compreendida quando se delimita com exatidão o direito à privacidade. Em princípio é preciso desmistificar de uma vez por todas a relação entre privacidade e lugares públicos ou privados. Um ato de corrupção praticado por um funcionário público em sua residência é de natureza eminentemente pública. Não se poderia jamais impedir sua divulgação na mídia ao simples argumento de que o local era privado. Em contrapartida uma relação sexual praticada em uma praia pública é um ato eminentemente privado, se evidentemente, como parece ter sido o caso de Daniela e Renato, foram tomadas as devidas cautelas para evitar os olhares dos banhistas.

O direito à privacidade, por outro lado, não é um privilégio garantido apenas a cidadãos anônimos. As celebridades quando não estão desempenhando atividades de interesse público, também têm direito ao resguardo de sua privacidade. A Corte Européia de Direitos Humanos decidiu corretamente no caso Von Hannover v. Alemanha que a Princesa Caroline de Mônaco, não obstante ser uma pessoa pública deveria, ter sua privacidade resguardada pela República Alemã no que diz respeito à publicação pelas revistas daquele país de matérias e fotografias relativas exclusivamente à sua vida privada.

Então como identificar os limites entre público e o privado? Em minha tese de doutoramento em Direito na UFPR destaco três características que em conjunto abarcam o que concebemos como direito à privacidade: direito de não ser monitorado, direito de não ser registrado e direito de não ter registros pessoais publicados.

A monitoração pode ser realizada pelos sentidos humanos com ou sem equipamentos tecnológicos. Se na sacada do meu apartamento vejo a olho nu uma bela moça trocando de roupa na janela, por óbvio não lhe violo a privacidade. Se, porém, valendo-me de uma câmera fotográfica com um poderoso zoom, fotografo a cena, certamente há uma violação de sua privacidade que só será maior se publicar a fotografia na Internet ou em outro meio de comunicação.

Observar Daniela e Renato relacionar-se sexualmente na praia não é a mesma coisa que filmá-los e, por óbvio, filmá-los também não é o mesmo que publicar a gravação. São, portanto, variações de atentados às suas privacidades. Se, por óbvio, não se pode punir alguém por observar um casal se relacionando sexualmente em uma praia, o mesmo não se pode afirmar de quem filma a cena e, muito mais grave, de quem a divulga a terceiros.

São estes graus de privacidade que precisam ser adequadamente compreendidos para se evitar excessos. O direito à privacidade em cada um destes casos será determinado pela expectativa de privacidade que alguém pode ter em cada situação.

Um casal que mantém relações sexuais na praia não pode alegar expectativa de privacidade em relação ao direito de não ser monitorado. Isso não implica, porém, que tenham expectativa de que possam ser filmados e, muito menos, de que esta filmagem possa ser divulgada a terceiros. Há, certamente, por parte do casal, uma expectativa de que suas imagens em situações privadas não sejam publicadas, pois isto lhes causaria um evidente dano moral.

Quando um direito é violado, em regra, duas soluções jurídicas são possíveis: a reparatória e a punitiva. No presente caso, se a publicação do vídeo gerou um dano à privacidade de alguém é natural que se busque evitar o incremento deste dano retirando o acesso público ao vídeo.

Ocorre, porém, que a Internet, por sua própria arquitetura, torna tecnicamente impossível qualquer tentativa de filtragem de conteúdo privado disponibilizado na rede. Ainda que se possa com sucesso retirar todos os vídeos do casal Daniela e Renato do YouTube, por certo não se poderá excluí-lo de toda a Internet, em especial de redes de compartilhamento de arquivo.

No presente caso, a desastrada decisão judicial que ordenou que o YouTube fosse retirado do ar foi inócua no seu objetivo de evitar o acesso ao vídeo, pois para que isso fosse possível não bastaria restringir o acesso ao YouTube, mas à própria Internet em sua totalidade, o que seria inconcebível. A decisão, porém, é bastante indicativa do analfabetismo tecnológico dos profissionais do Direito brasileiro, que insistem em tratar a Internet com meios coercitivos convencionais. A arquitetura da Internet foi concebida para continuar funcionando mesmo em uma guerra de grandes proporções; não resistiria ela a uma ordem judicial?

É preciso que os profissionais do Direito entendam que se pode fechar sites, mas não se pode impedir que a informação circule na Internet por outros meios, em especial pelas redes P2P. O uso de instrumentos jurídicos com este objetivo, longe de resolver o problema, só tende a aumentá-lo. Há uma inerente publicidade em torno deste tipo de decisão, em regra muito mal recebida pelos internautas, que vêem nelas resquícios de uma censura que, no presente caso, não existiria se fosse limitada à retirada exclusivamente dos vídeos da rede. Aliás, seria uma contradição em termos se pensar numa censura de informação de cunho eminentemente privado.

Daniela e Renato tinham todo o direito à privacidade naquele canto deserto da praia espanhola onde mantiveram relações sexuais. Infelizmente, porém, o Direito não possui meios eficazes para lhes garantir uma solução reparatória. Tudo que resta ao judiciário é impor uma solução punitiva a quem lhes violou a privacidade para evitar que no futuro casos como este se repitam. Assim, o judiciário deveria impor ao paparazzo que os fotografou uma severa indenização por danos morais decorrentes da invasão da privacidade do casal e do uso indevido de suas imagens. Qualquer tentativa de retirar os vídeos da Internet por meio de procedimentos jurídicos, no entanto, soa como vã e fadada ao fracasso, pela própria arquitetura da rede.

A reação furiosa do público diante do episódio, por fim, demonstra muito mais suas próprias frustrações por desejos reprimidos que uma verdadeira indignação pela censura judicial. Gostaria de presenciar tamanha indignação diante da cotidiana censura econômica patrocinada pelas grandes emissoras de televisão, revistas e jornais nacionais quanto ao conteúdo ideológico das notícias que publicam. Mas infelizmente o grande público parece não se interessar tanto pelo direito à liberdade de informação quanto pelo direito à liberdade de fofoca que clamorosamente defendem.

Também publicado no Observatório da Imprensa e, em versão reduzida, no jornal O Tempo.

Janeiro 16, 2007 at 4:08 pm 26 comentários

Vigilância eletrônica

O boletim RT Informa traz em seu número 46 matéria de capa sobre vigilância eletrônica de espaços públicos. Na reportagem foram ouvidos alguns profissionais do Direito que manifestaram preocupação com a expansão da vigilância eletrônica. Confiram a íntegra da matéria.

Dezembro 29, 2006 at 8:01 pm 3 comentários

Seminário de Processo Eletrônico

No dia 23 de março de 2007, participarei, na aprazível cidade de Petrópolis-RJ, do Seminário de Processo Eletrônico organizado pelo Instituto Brasileiro de Direito Eletrônico – IBDE. No evento haverá o lançamento do novo livro do meu amigo Professor José Carlos de Araújo Almeida Filho, que vem se destacando no Brasil por seus estudos no Direito Processual.
Para maiores detalhes visitem o site do IBDE.

Dezembro 14, 2006 at 2:05 pm Deixe um comentário

Da séria série: grandes momentos da TV brasileira

Novembro 22, 2006 at 11:14 am 3 comentários

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