E se Liana se chamasse Maria e Felipe se chamasse João?

Novembro 18, 2003 at 6:00 pm 15 comentários

O homicídio dos adolescentes Liana e Felipe tão alardeado pela mídia na última semana não passaria de uma tragédia particular como tantas outras registradas cotidianamente em nossas delegacias de polícia, não fossem as circunstâncias nas quais ocorreu. Não me refiro ao grau de crueldade na execução do crime, pois dezenas de Marias e Joões são mortos todo dia em situações tão ou mais bárbaras e não são objeto sequer de uma nota nos jornais de primeiro escalão. O que difere este homicídio daqueles que já não vendem mais jornais é a posição ocupada pelas vítimas na sociedade. Na balança da mídia e de seus consumidores de tragédias pessoais, a vida de um adolescente de classe média vale muito mais do que a de um João e Maria…

O que choca nas mortes de Liana e Felipe, não são as circunstâncias da execução, mas a transferência que o leitor-telespectador-consumidor faz, colocando seus próprios filhos na situação das vítimas de fato. As mortes das Marias e Joões não chocam, pois se dão nas favelas, na periferia, em suma, em lugares demasiadamente distantes e “perigosos” – as aspas aqui são imprescindíveis – para a maioria dos filhos da classe média.

Liana e Felipe, em sua sede de aventura, foram vítimas da desigualdade brutal que tanto os distanciavam de Champinha, seu suposto algoz e atual personificação do demônio segundo a mídia-urubu que a cada dia infesta nossos noticiários. Liana e Felipe criam que sua passagem por aquelas terras se daria de forma quase imperceptível – tal como ocorreria em um shopping – esquecendo-se de que a desigualdade social é demasiadamente visível e cruel àqueles que olham de baixo.

O trágico final da história todos conhecem, tal como foi contado pela mídia em uma versão para adolescentes da velha fábula de João e Maria, que foram aprisionados pela perversa bruxa da floresta.

E como em todo velho conto de fadas a mídia não podia deixar de buscar uma moral na história: os adolescentes rebeldes de classe média devem doravante obedecer a seus pais e os garotos pobres deverão ser encarcerados a partir dos 16 anos para a proteção dos primeiros.

Se o garoto Champinha tivesse estudado nos mesmos colégios de Liana e Felipe, teria se tornado tão “violento”? Se o Estado tivesse proporcionado a Champinha um tratamento adequado às convulsões que passou a ter a partir dos 14 anos, teria ele tamanho desprezo pela vida humana?

Violento é Champinha e não o Estado que lhe negou uma infância minimamente digna e a mídia que só enxerga as crianças e adolescentes miseráveis para mostrar a seus consumidores o quanto eles são “perigosos” e com que frieza eliminam uma vida.

Quanto vale uma vida humana? As de Liana e Felipe, certamente valiam muito, não só pelo amor de suas famílias, mas também de um ponto de vista exclusivamente econômico pelos investimentos que foram feitos em alimentação, educação, saúde e tantos outros. Valem tanto que vendem jornais e dão audiência.

A de Champinha não vale nada! Pouco ou quase nada foi investido nele: alimentação, educação, saúde e lazer, para ele, não são mais que palavras impressas em nossa Constituição Federal que ele dificilmente consegue ler.

Como então exigir de Champinha que respeitasse a vida de Liana e Felipe, se o Estado e a sociedade nunca respeitaram a sua?

A mídia-urubu e seus consumidores de carniça impressa e gravada clamam por justiça, em nome de Liana e Felipe, que tiveram a infeliz idéia de acampar no lugar errado num misto de desafio e coragem.

Reduzir a menoridade penal, é a forma mais simples e irracional de se resolver um problema complexo: lugar de criança e de adolescente é na escola e não trabalhando como tantos de nossos jovens que perdem suas infâncias e adolescências para ajudar no sustento de seus lares.

Antes de cogitarmos em reduzirmos a menoridade penal, temos a obrigação constitucionalmente consagrada de colocar todas as nossas crianças na escola e – principalmente – garantir-lhes que possam permanecer estudando, dando às suas famílias o mínimo de condições de subsistência. Assim fazendo certamente estaremos evitando tragédias como esta.

Do contrário, a redução da menoridade penal será mais uma nova lei que marginalizará ainda mais os filhos da miséria com o fim único de amenizar os ânimos dos leitores-telespectadores indignados com a violência e calar o choro da mídia carpideira.

Também publicado em: Obervatório da Imprensa e Caros Amigos.

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O crime compensa (se vc estiver no poder, é claro…) Grupo de Estudos Alessandro Baratta no 11º Seminário de Iniciação Científica da PUC Minas

15 comentários

  • 1. Izilda  |  Novembro 18, 2003 às 6:51 pm

    Absolutamente certo dizer que o Brasil precisa cuidar de seus pobres e, principalmente, garantir-lhes a possibilidade ascensão social, por meio do conheciemnto e trabalho.
    Mas, daí aquerer passar a ilusão de que o pobre é coitadinho e precisa praticar atos violentos para mostrar que é “coitadinho social” é utopia de intelectual.
    E digo isso, com conheciemnto de causa, pois nasci e vivi tempo em meio à pobreza e nunca, na minha grande família de irmãos, primos e agregados, vi alguém cometer um crime qualquer. Fomos todos à luta, com muita dificuldade, muita fome e muita humilhação, mas nunca perdemos o norte da importância do honestidade e trabalho.
    Não é porque esses jovens fossem de classe média é que precisariam morrer.
    Chapinha, Ferrinho, Parafusinho ou qualquer outra alcunha que tenha merce morrer, com muito sofrimento.
    E quem está com dó dele, espero que um dia seja visitado alguém semelhante a ele, daí, tenho certeza que não fará apologia à “cultura da pobreza”.

  • 2. Evania Cristina de Souza  |  Novembro 19, 2003 às 5:42 pm

    Concordo plenamente na existência do preconceito social que “ronda” o argumento da necessidade de diminuir a menoridade penal. O individualismo atual é um fator que se une ao preconceito e ao desprezo pelos marginalizados, fazendo com que acreditemos que colocar adolescentes na prisão seria a solução para um problema de raizes históricas. Se o discursso da “ressocialização” é falido para adultos, quem dirá para adolescentes? O aumento da menoridade penal é claramente um desprezivel meio que alguns encontram para argumentarem que estão tomando providências contra a violência.

    Envolver-mos com este discursso é uma ilusão que só é sustentada por quem ignora a real situação brasileira ou por quem a conhece e se privilegia dela.

  • 3. Sergio Mazina Martins  |  Novembro 20, 2003 às 12:18 am

    Parabéns pelos comentários que, aliás, tocam nos pontos centrais da questão.
    Abraços.

  • 4. Ziclaudio Costa  |  Novembro 20, 2003 às 8:52 am

    … e no fim, depreendo, a vida não passa de um bem econômico? Estamos mal, muito mal…

  • 5. Francisco Breda  |  Novembro 20, 2003 às 9:17 am

    Ola Prof Tulio

    na mesma linha de raciocinio…

    o Sr se lembra quando caiu o helicoptero do Diniz (Pao de Açucar)? O Sr certamente soube que morreu a “modelo” (na verdade, uma das muitas que o filho do milionario estava transando – nao censuro o rapaz, eu faria o mesmo!), talvez se lembre até o nome dela…
    mas alguem se lembra do piloto do helicoptero? que estava trabalhando? Ele tinha 2 ou 3 filhos (acho eu), o Sr sabia disso?…mas alguem divulgou alguma foto ou o sequer nome dele??

    Francisco Breda

  • 6. Thatiana Ribeiro  |  Novembro 24, 2003 às 4:49 pm

    Questão delicada.

    Champinha vem de uma família bem estruturada. Muito humilde, é verdade, mas muito bem estruturada. Os pais — trabalhadores honestos e esforçados –, que por muitos anos foram caseiros de uma chácara da região, haviam se mudado do lugarejo há algum tempo e ele escolhera ficar por lá. Champinha era paupérrimo? Não. Champinha foi uma criança maltratada pelos pais? Não. Passava fome e frio debaixo da ponte ou tinha que vender balinha no semáforo pra própria subsistência? Definitivamente não.

    E, por favor, não me façam cogitar que precisamos ter dinheiro, status ou poder, pra sermos bem criados neste país. Não seria possível que eu absorvesse isso agora, ou todas as minhas convicções de que uma reforma social é possível e necessária, cairiam por terra. Não precisei morar em palacetes, comer caviar no café da manhã ou beber vinho do porto no jantar, pra discernir o certo do errado. Não precisei nascer em berço de ouro, pra aprender que nada é mais valioso do que o respeito ao ser humano. Não me façam acreditar que este garoto precisaria.

    Champinha teve sim, a oportunidade de estudar, e o fez enquanto quis — palavra dos pais, dos educadores e dos colegas. Teve o conforto e a tranqüilidade financeira que seus pais puderam dar, até o dia em que ele mesmo resolveu que não precisava mais deles.

    E aí? A minha pergunta é: aonde o Estado errou — especificamente com este garoto ?

    O Estado erra com muitos. Erra desde sempre, erra muito e erra feio. Mas neste caso, isoladamente, não seria justo ou sensato atribuir toda a responsabilidade a ele. E digo mais: não encontro nenhum argumento sólido que possa isentar esse garoto de qualquer culpa. Aos dezesseis anos, a gente já sabe que colocar o dedo na tomada dá choque. Ele sabia bem o que estava fazendo. E sabia, inclusive, que teria que agüentar as conseqüencias disso. Ele cometeu um crime (um não, vários), merece estar aonde está, deveria ficar muito mais e, fez aquilo por pura maldade. Sim, porque, por necessidade, desespero ou qualquer outro atenuante, hm… tenho certeza que não foi. É a velha “fí-lo porque quí-lo”. Se Champinha fosse rico, estaria na mídia do mesmo jeito, vivendo seu momento de celebridade.

    Se esse menino tem problemas mentais, que seja internado. Se é um criminoso frio — e tenho certeza que é –, que seja punido pelo que fez, respondendo como gente grande. E por quê responder como gente grande? Porque cometeu um crime de gente grande, com requintes de maldade, como só gente grande consegue fazer — ninguém estupra uma garota de dezesseis anos por necessidade ou por obrigação, convenhamos.

    Se a vida dele não vale nada? Vale, vale sim. Vale tanto quanto as vidas das duas outras crianças que ele executou sem pena e sem hesitação. A diferença é que ele continua vivo, exilado na estúpida FEBEM (aquele curso superior pra formação de criminosos) e daqui a três anos, provavelmente estará nas ruas matando mais duas, três, cinco pessoas com igual ou maior frieza, a troco de nada ou de algo que não o valha.

    As milhares de mortes de Marias e Joões chocam sim. Aliás, Felipe era um João, que se apaixonou por uma Cinderela. Acontece nas melhores famílias.

    Não importa se o caso Liana e Felipe ganhou destaque demais na mídia e conseguiu chocar pais, líderes religiosos, autoridades políticas ou quem quer que seja. O que importa, efetivamente, é que duas vidas foram ceifadas de uma forma bárbara e desumana.

    Champinha deve pagar pelo que fez. Sendo rico ou pobre.

  • 7. Denise G. M. S. Oliveira  |  Novembro 25, 2003 às 3:10 pm

    Sr. Prof. Túlio,

    Desculpe-me discordar da sua opinião sobre o casal João (Felipe) e Maria (Liana). Posso estar enganada, mas o Estado não pode ser inteiramente responsabilizado pela atitude do Champinha. É claro que o Estado tem responsabilidades que deveriam ser cumpridas (dar educação e saúde por exemplo), mas a culpa é do Champinha. Tem muita gente sem instrução, sem moradia, gente humilde mesmo, que é honesta, que não é ladrão, que não é violenta. Parece que ele até freqüentou a escola, mas não se interessava, não fazia amizades. O Estado deu a oportunidade para ele, e ele a jogou fora. A decisão dele foi abandonar a escola. Ele escolheu o que fazer da vida dele muito mais novo do que é agora.
    Nestes jornais de grande circulação realmente não vão aparecer os crimes semelhantes ao de João e Maria. Não tem ninguém interessado em publicar. Ninguém na porta das delegacias das periferias para acompanhar as brutalidades que acontecem. No máximo comentam sobre chacinas. Às vezes, nem no jornal do bairro isso aparece.
    Acho compreensível que, nós pais, nos preocupemos e soframos, com medo de que os nossos filhos venham a passar uma situação parecida com essa. Eu tremo só de pensar.
    Felizmente, os pais do Felipe e Liana, conseguiram mobilizar as pessoas, para procurar os seus filhos e divulgar a brutalidade que fizeram com eles e que todos nós já sabemos.
    Isso mostra para todos, que nossa vida não vale nada, nada mesmo, na mão de criminosos. Não importa se somos ricos ou pobres. No caso da Liana, o que chamou a atenção do Champinha, foram os modos e a beleza dela. Se ela fosse uma garota de periferia, educada e linda (isso também é possível, certo ?), teria acontecido a mesma coisa. A diferença é que, provavelmente não seria divulgado. A brutalidade é igual, independente da classe social.
    E o caso do maníaco do parque. Ele não estuprou/matou mulheres de uma classe social mais elevada. Eram de classe baixa. Algo nelas chamou a atenção dele. Provavelmente a beleza também. Mas como foram tantas, chegou a aparecer nos jornais.
    Felizmente, o Champinha foi pego antes de se tornar um assassino em série, como o Maníaco do Parque.
    Acredito que a maioridade penal deveria ser revista, e, em certos casos (como esse), ignorada. Este crime foi “de gente grande”. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Quando estuprou a garota e quando a ofereceu aos companheiros, ele estava se divertindo, e não tendo um surto psicótico. Ele não estava sendo ameaçado pela Liana quando deu as facadas nela. Se fosse para se defender, daria uma ou duas, e não tantas quantas ele deu (me parece que foram 16). O que ele fez foi calar a menina, para que ninguém conseguisse descobrir que foi ele que cometeu o crime.
    Lugar de criança é na escola sim. Mas lugar de criminoso é na cadeia. E se esta cadeia fosse um lugar onde ele tivesse que trabalhar para garantir o seu sustento ? Será que ele não aprenderia mais ? Será que não serviria de escola para ele se tornar uma pessoa melhor ? Será que ele não aprenderia a dar valor a vida ? Acho que cada caso tem que ser avaliado separadamente, e o bom senso, deve ser utilizado.
    Acho que eu me incluo nos seus termos de “consumidores de carniça impressa e gravada que clamam por justiça”.
    Se pessoas como o Champinha (ou até mais novos que ele) forem presas, certamente dará mais tranqüilidade à milhares de famílias que lutam, independente da classe social, para que pelo menos seus filhos vivam.
    Denise G. M. S. Oliveira

  • 8. Antonio Carlos  |  Novembro 26, 2003 às 7:58 am

    Sr. Túlio,
    Da mesma forma como a mídia exagera em sua exploração, o senhor reduz a questão a um conflito de classes e minimiza a dimensão da tragédia. Isto é um equívoco perigoso.

  • 9. Izabella  |  Novembro 26, 2003 às 2:59 pm

    Concordo com a questão. A midia se empenha em acabar com os suspeitos e tranformar advogados e juizes em sangessugas desalmados, sem no entatnto promover um debete mais profundo das questões sociais que estão por tras desde crime.

  • 10. Mauro Ferreira Jardim  |  Novembro 28, 2003 às 7:48 am

    Prof. Tiago

    Eu acho que se só a educação, e as tais oportunidades fossem a resposta para esta onda de violência, nos EUA não haveria este tipo de crime, e como sabemos há.
    Claro que estas coisas ajudariam, mas não resolveriam na minha opinião. De qualquer forma é importante termos um contraponto neste debate tão senso comum provocado pela mídia.

  • 11. Valerio Carvalho Lima  |  Novembro 28, 2003 às 1:33 pm

    Eu pergunto ao Sr. autor destes comentários, já subiu uma favela pra acampar? Faria o mesmo? Ah, e se o Sr. fosse feito vítima de alguma violência, ante de sucumbir argumentaria a “falta” do Estado… Claro que não, nem mesmo eu subi ou subiria, e nem argumentaria, óbvio, a falta não é do Estado, é de quem é que deveria ser parte dele (nós), a absoluta falta de comprometimento de nosso povo para com a nação, o individualismo crescente, a miséria solapante, o abismo social entre ricos e pobres… o problema é até a solução de tanta coisa chegar, não é? Estou, acho que estamos todos, sem um rumo certo, e a maioridade aos 16 também não deixa de ser um norte sem porto definido…

  • 12. Leonardo Da Vinci  |  Novembro 30, 2003 às 2:43 pm

    Prof. Túlio,
    Te apóio e vejo que você está além da mediocridade. Muito provavelmente serás alguém criticado, o que vejo, as vezes, com um certo brilho de geniosidade. Eu poderia criticar a situação com muito mais agressividade mas você foi ponderado e ao mesmo tempo preciso.
    Parabéns pelo ensaio…
    Leo

  • 13. Cel Hauck  |  Dezembro 5, 2003 às 2:58 pm

    Túlio,
    o seu texto está perfeito,abordando vários assuntos ou caminhos que a mídia,sempre,se esquece de mensionar quando há fatos desse nível.
    Sabe-se que em momentos de emoção e de fortes paixões não conseguimos tomar atitudes sábias e racionais. Portanto, como se vê em muitos jornais, e até mesmo em algumas rodas de amigos, o tema da redução da maioridade penal, seria,hoje, completamente ineficaz em tentar resolver ou ao menos reduzir o problema dos crimes praticados por jovens.

    O problema presente é social,mas sem sombra de dúvidas temos forte pressão da sociedade em “pedir” ou “implorar” ao direito Penal para que solucione,a sós.

    Um forte Abraço

  • 14. Mariangela Portela  |  Dezembro 16, 2003 às 7:41 pm

    Problema social ou não, o fato é que em São Paulo foram “torturados” dois jovens de periferia, obrigados a saltar de um trem em movimento por um grupo de skinheads. Nem dona Hebe Camargo ameaçou matar os skinheads, nem saiu de seus cuidados para mobilizar a população de classe média a uma passeata de protesto na Avenida Paulista (como fez no caso de Liana e felipe) pelo que acometeu os dois infelizes, um morto, outro mutilado.
    O Professor tem toda razão quando ressalta a identidade de classe da “mídia carpideira” burguesa, e da classe média que engole sem digerir o que é publicado ou dito/mostrado na TV
    Se Champinha é de fato um monstro pela própria natureza, que escolheu o caminho da criminalidade, há outros jovens da periferia que não têm escolha, que não têm a chance de optar por estudar em boa escola, por uma vida digna ou um trabalho “honesto”. Uma conjunção infeliz entre a pobreza, a falta de referências ético-morais, facilidades apresentadas pelo “mundo do crime” e pelo fortalecimento de uma ideologia neoliberal, individualista e excludente (sustentada pela mesma mídia que se indigna com a fome, com os crimes, com os efeitos diretos desta ideologia) tem arrastado levas de jovens (e adultos também!) para o mundo das drogas e para a prática de crimes.
    O que separa a classe média da pobreza, nesse sentido, é cada vez mais sutil, pois grande parte da classe mantém por exemplo, o narcotráfico, com o consumo eventual ou constante, mas sempre cheio de “charme”, de drogas.
    Por vivermos numa sociedade marcada por tanta desigualdade, acabamos sendo vítimas desse modelo, de todo jeito.
    No fundo, no fundo, ninguém se salva sozinho.

  • 15. Daniel  |  Janeiro 2, 2004 às 4:14 pm

    Eu não agüento mais ver o povo brincando de “quero justiça”. São manifestações que não levam a absolutamente nada. Estamos andando em círculos.
    Antes de pedir justiça é preciso definir o que é justiça. De repente virou moda fazer manifestações: “queremos paz”, “queremos o fim da violência”, “queremos o desarmamento”, “queremos paz com justiça”. Queremos justiça…
    Fica só no querer. Um grande passatempo.
    Eu pergunto: o que é justiça?Justiça pra quem? O que é uma pessoa de bem?
    Desde que li o texto do Prof° Túlio várias questões têm se levantado em minha consciência.
    Não entendo porque um crime que, infelizmente, é tão comum (basta ler as ocorrências policiais) chocou tanto a população. No início desse mês fizeram exatamente o mesmo com uma menina de 13 anos chamada Vanessa, moradora de uma favela do Rio. Saiu em notas pequenas na Folha, no Globo e em outros jornais e sites. Mas ninguém deu importância e nem ficou chocado e os 8 homens adultos que raptaram, estupraram, torturaram barbaramente e depois a assassinaram da forma mais cruel ainda estão soltos. Apesar dos moradores dizerem a polícia onde os bandidos moram e quem são, a polícia ainda não conseguiu prendê-los. No inicio de 2003, um rapaz de 18 anos saiu com o Tempra 94 do pai junto da namorada de 15 anos. Eles foram seqüestrados por 4 bandidos que os levaram para o mato. Como ele não tinha dinheiro foi torturado por várias horas e teve que assistir os 4 estuprarem e matarem a menina na frente dele. Ele foi solto e avisado de que na próxima vez que o encontrassem deveria estar com dinheiro. Os criminosos ainda estão soltos. Essa notícia saiu em vários jornais e não houve nenhuma comoção. Ninguém ficou imaginando que aquele casal (ainda mais jovens que Liana e Felipe) poderia ser seus filhos. Nenhum delegado chorou enquanto fazia a investigação do crime. Nem houve investigação. Ninguém pediu pena de morte. Ninguém pediu pena de morte para o padrasto da Rayane de 3 anos que a espancou, torturou e violentou sexualmente por 3 meses e no final a matou de pancada. Não sobrou uma parte inteira no corpinho dela. Embora o crime tenha sido noticiado em vários jornais como a Folha, O Estadão, o povo não ficou comovido ao extremo imaginando como deve ser a imagem de 1 menina de 3 anos sendo afogada, tendo mechas dos cabelos arrancados com raiz, sendo estuprada por um homem adulto e espancada até a morte. Ninguém pediu pena de morte pra ele. O mais tenebroso na história da Rayane é que o Conselho Tutelar já havia sido avisado e a avó já havia feito a denuncia na delegacia. E nada foi feito até que ela morreu.
    Apesar de tudo o que foi falado, o que mais me chocou na história do casal de Embu foi o fato de ter várias denúncias contra esse Champinha na delegacia. Ele era conhecido como o terror da região, já tinha matado 3 pessoas, torturado outras, ele foi expulso da escola ainda criança por ser demasiadamente agressivo. Então, por que esse louco ainda estava solto naquele lugar? Apesar das denúncias, ele nunca recebeu nenhum tratamento psicológico, internação em FEBEM ou clínica psiquiátrica, ele não cumpria e nunca cumpriu nenhuma medida sócio-educativa. Nada foi feito. Ficou à Deus dará. Ele era um Zé ninguém que aterrorizava apenas gente sem importância.
    Provavelmente, se o Felipe (que na verdade é um João) estivesse acompanhado de uma Maria, seus corpos ainda estariam lá, apodrecendo sem nunca serem encontrados e outros muitos assassinatos aconteceriam.
    Mas, quando todo mundo percebeu que o seu Ari tinha bala na agulha: anúncios na internet, helicóptero e a presença da mídia fizeram a maior busca. Até conseguiram encontrar os corpos. Em 10 dias encontraram e prenderam todos os bandidos, fizeram acareação e reconstituição do crime. E o suposto assassino era o já conhecidíssimo terror da região: o menor Champinha, o louco que há muito já deveria estar preso. Mas em compensação, todos os investigadores choraram, o Delegado chorou e ofereceu a mais sincera solidariedade ao pai da jovem assassinada. Que se danasse o Felipe Caffé, mas aquela menina de pele branquíssima, olhos azuis e de alta classe social poderia ser a filha do Delegado. Era só nisso que o Brasil pensava: podia ser a minha filha. Então, vamos criar uma lei pra matar ou pelo menos prender o Champinha para o texto da vida. Ele tem que pagar. Agora a brincadeira é “Vamos brincar de paz com justiça”.
    Eu sou totalmente contra a criação de qualquer lei ou emenda e não agüento mais tantos estatutos. Pra que tantas leis se elas não saem do papel? O estatuto da Criança e do Adolescente é ótimo, perto da perfeição. Se ele tivesse sido aplicado quando o Champinha estava começando a mostrar os primeiro sinais de degeneração social provavelmente a Liana ainda estaria viva. Ela só morreu porque as pessoas que foram assassinadas antes dela pelo mesmo garoto não eram importantes.
    O seu Ari e toda população sabem disso, mas aceitam com total naturalidade que as coisas sejam assim mesmo: os crimes devem ser punidos conforme a importância da vítima. Só que eles se esquecem que os assassinos não costumam fazer discriminação de classe social. Quem estupra e mata menina pobre, faz o mesmo com a rica. Não entendo porque tanta preocupação com o Champinha se temos tantos outros iguais e até piores soltos por aí.
    A questão não criar uma nova lei. Duvido muito que o Seu Ari consiga uma redução de idade penal. Mesmo se 100% da população clamasse pela redução ele ainda teria gigantes fortíssimos: Fundação Ablinque, CNBB (igreja Católica), OAB, Presidente da República, ministros, toda bancada do PT, governadores, algumas Igrejas evangélicas e muitos outros pesos pesados. E não podemos esquecer que a população é manipulável, se amanhã fizerem uma grande campanha contra a redução, tenho certeza que grande parte da população muda de opinião. A prova disso são as eleições políticas: ganha quem faz melhor propaganda.
    Eu não sou contra e nem a favor da redução porque não é aí que está o problema. Pra que toda essa campanha, esse esforço imenso, demorado pra punir menos de 1% da criminalidade da qual a Champinha faz parte? De repente alguém descobre que o cara é louco demais e o mandam para um manicômio. E eu não me espantaria se daqui um tempo descobrirem que não foi ele o autor do crime. Agora ele está sendo considerado o suposto autor. São tantos os casos em que a policia extrai confissões sob tortura só pra satisfazer o clamor da população como no caso do dono da Schincariol, a policia prendeu e torturou o garçom até que ele confessasse o crime que não cometeu. Será que alguém se lembra dos assassinatos no bar Bodega? A polícia pegou uns caras pobres e trabalhadores que não tinha nada a ver com o crime e os torturou barbaramente até que eles confessaram. Quando tudo parecia encerrado um outro departamento da polícia apresentou os verdadeiros criminosos e as provas dos crimes. E a população aceita que isso aconteça, tem que ter vingança mesmo que se puna as pessoas erradas e os verdadeiros criminosos fiquem livres para fazer o que quiserem.
    Eu acho que é até razoável querer punir o menino- monstro com pena de morte desde que coloquem com ele no paredão todos os investigadores, Delegado e autoridades que permitiram que ele permanecesse solto sem nenhum tratamento ou punição depois de todos os crimes que fez antes de encontrar o jovem casal.
    Redução de idade penal não vai resolver o problema da criminalidade, só vai disfarçar por um tempo. Não é essa a questão.
    Ninguém nasce monstro, a pessoas se torna um monstro no decorrer da vida. O champinha virou esse monstro porque deixaram que ele virasse. Agora que o problema ficou desse tamanho, o que fazer com ele? Que diferença faz o projeto do Governador de São Paulo de aumentar de 3 para 8 anos o período de interanação na FEBEM? Que diferença fez o enorme esforço da Glória Perez para classificar como crime hediondo o homicídio qualificado se o Guilherme de Pádua já está livre (ficou só 7 anos preso)? Será que isso é uma vitória nacional?
    A justiça só é justa na medida que ela é igualitária. Não podemos aceitar que os crimes sejam resolvidos conforme a importâncias da vítimas. Como combater a violência se em muitas vezes polícia e ladrão são quase a mesma coisa? Como nós vamos combater a violência se o crime organizado já domina boa parte da cidade e desafia a polícia mostrando quem é que manda. A presença de um traficante na periferia desmoraliza qualquer lei. É esse traficante que será exemplo para as crianças e adolescentes que ainda estão em formação moral. Porque um adolescente vai ter medo da redução penal se o seu ídolo traficante vive solto, reinando e desafiando a polícia. Esses caras crescem sem medo de morrer. Não têm medo de pena de morte porque sabem que vão morrer cedo.
    Depois de muitas manifestações, agora temos o Estatuto do desarmamento que provavelmente não vai sair do papel. Será que esse estatuto vai fazer alguma mudança? Duvido que o crime organizado fique desarmado.
    Essa tragédia do jovem casal resultou apenas numa enorme tempestade no copo d’agua. Uma caminhada em círculo. Mas, foi até bom. Os jornais e revistas faturaram muito com a Liana na capa. E foi só lucro porque nem precisaram pagar cachê. A polícia de São Paulo foi muito elogiada e virou a grande heroína dessa história. E pra minha surpresa quando a entrevistadora do Sem Censura afirmou (mostrando a ineficiência da polícia) que por diversas vezes a polícia esteve perto do cativeiro do casal e que mesmo assim não conseguiu encontrá-los, o seu Ari os defendeu prontamente dizendo que depois de ter sido estuprada, ele não sabia se preferia que sua adorada filha fosse morta ou voltasse pra casa porque o que voltaria seria um monstro e não a sua filha. BELO RACIOCÍNIO!!! Talvez tenha sido esse o raciocínio do Champinha, se ele já tinha estuprado, pra que a deixaria viver? Só pra dar trabalho pro pai dela?
    Temos muitos monstros nessa história.
    É hora de parar de brincar de pedir novas leis e exigir que as leis que já temos sejam cumpridas. É a única coisa coerente a se fazer pra pararmos de andar em círculos.

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