O poder corrompe…

Junho 9, 2005 at 11:13 am 5 comentários

Li no blog do Noblat um tópico que me remeteu a um texto do Fernando Gabeira publicado em 4 de julho de 2005 na Folha de São Paulo que termina com o seguinte desabafo:

Enfrentamos cadeia, tortura e exílio e, de certa forma, sobrevivemos moralmente inteiros. A experiência do poder quebrou mais nossa vontade do que todos os paus-de-arara; os holofotes e o cordão de puxa-sacos nos confundiram mais do que choques elétricos. Amigos que enfrentaram horas de tortura para salvar os outros hoje se dedicam a produzir notinhas, uns contra os outros.
Tudo o que é sólido se desmancha no ar. Há dissoluções mais bonitas, passagens mais perfumadas. Esse episódio, mascarado de ascensão de um trabalhador ao governo, é uma crueldade histórica. Levarei muitos anos para justificar a mim mesmo como foi possível acreditar nisso, já no fim do século 20, quando experiência e prática nos incitavam a duvidar. Ignorantes da tragédia histórica, fomos condenados à farsa.

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Sobre o NÃO à Constituição Européia… Noções elementares de aritmética não têm preço!

5 comentários Add your own

  • 1. Ula Senra  |  Junho 14, 2005 às 7:57 am

    Meu amigo Túlio,

    Não se sinta sozinho, nem tolo, aliás tola também me sinto. Vossa Exa., O Sr. Presidente da República, diz que somos acomodados, que não tiramos o “traseiro” da poltrona para procurar juros mais baixos. Fernando III continua chamando os aposentados de vagabundos com aquelas finas metáforas que aprendeu ao longo da vida de sindicalista. Nós, trouxas, achando que, finalmente, vencemos, porque o povo chegou ao poder. A única diferença é que agora votei, fiz campanha, e ecreditei. Somos acomodados, sim Presidente, como o Sr. afirmou, porque acreditamos nas suas palavras. E não era em milagres não, mas era num mínimo de consideração para com quem foi às urnas com a vã esperança de que o Sr. comprisse com o que prometeu. Somos acomodados, porque pensamos que, desta vez, o dinheiro da saúde e educação não iria direto para a FEBRABAM, que se compriria com o IR de acordo com a salário de cada brasileiro,para uma distribuição de renda mais justa, que se implantaria o Imposto Sobre Grandes Fortunas, que nunca se implantasse o foro privilegiado após a saída da função pública. Somos acomodados porque acreditamos também que, como fazia esse partido de “esquerda” lutaría-se contra a corrupção e não abafaria-se CPI´s. Depois do escândalo do “mensalão”, aí foi demais. Vamos ver quem vocês vão jogar no fogo, porque em em honestidade não caio mais não.

    Ula Senra

    Responder
  • 2. Tulio Vianna  |  Junho 14, 2005 às 10:13 am

    Querida Ula,

    Que bom ter sua opinião aqui na página!

    O texto do Gabeira é impressionante, pois retrata com perfeição uma das facetas mais perversas do poder: a capacidade de corromper aqueles que mudam de lado na relação opressor/oprimido. Ainda que eu continue vendo o governo do PT com melhores olhos do que via o de Fernando II, uma coisa para mim é demasiadamente angustiante: é um governo de direita. Daí concluo que a eleição de Lula foi a maior das vitórias da direita, pois simplesmente corrompeu a esquerda em direita, deixando-nos órfãos de um partido reformador. É esta crueldade histórica de que nos fala Gabeira que mais me incomoda…

    Responder
  • 3. Fernando Soares Campos  |  Junho 19, 2005 às 2:19 pm

    Flores, flores para…

    * * * * * * * *
    “Os militares batiam, davam choques e insultavam na sessão de tortura, mas vi muitos dizendo que me respeitavam porque deixei um bom emprego para combatê-los com risco de vida. Eles viam ideais no meu corpo arrasado pelo tiro e pela cadeia.
    O PT queria que eu abrisse mão exatamente da minha alma, e me tornasse um deputado obediente, votando tudo o que o Professor Luizinho nos mandava votar. Os militares jamais pediriam isso. Desde o princípio, disseram que eu era irrecuperável e limitaram-se à tortura de rotina.
    Jamais imaginei que seria grato aos torturadores por não me pedirem a alma.”

    * * * * * * * *

    Essa coisa aí em cima é um trecho de um artigo de Fernando Gabeira, intitulado “Flores, flores para los muertos”. Mas bem que poderia receber o título de “Síndrome de Estocolmo”, ou, com sutil adaptação, “Como era gostoso o meu torturador”.

    Parece que estou vendo:

    O carcereiro, abrindo a porta da cela, anuncia:

    — Senhor Gabeira, queira nos desculpar por interromper a sua evacuação fisiológica provocada pelas últimas porradas, mas está na hora de sua sessão de tortura.
    — O que é isso, companheiro?! Eu já estava terminando mesmo! Vamos lá. Serei sempre grato àqueles que me respeitam. Além disso, antes do primeiro interrogatório, eu estava com prisão de ventre, apertadinho, não passava nada, agora relaxou de vez. Vamos, vamos lá. Façam os seus trabalhos — volta-se para o parceiro de cela e diz: — eles são muito educados, só insultam durante o trampo. E tem mais: eles não querem que eu abra mão de minha alma.
    O carcereiro concorda:
    — Claro que não, companheiro! Se você morrer, a gente fica desempregado.
    — E ainda tem mais: eles não me pedem pra votar em nada!
    — Isso é verdade: nem pra presidente, nem pra governador, nem pra senador… nada! Além disso, o Gabeira é irrecuperável: a esquerda jamais o terá de volta!

    …………..

    Sr. Gabeira, quer criticar, protestar, queixar-se, reclamar, ou seja lá o que queira fazer ou dizer sobre/contra o governo do PT? Então, seja decente, faça como boa parte da população: critique, proteste, queixe-se, reclame; diga qualquer outra asneira, mas não elogie torturadores, em nenhuma hipótese!!! Aprendi isso com Fausto Wolff, Ziraldo, Jaguar, Henfil e tantos outros pasquineiros. Você também esteve por lá, Gabeira. Claro que o meu primeiro professor foi meu pai, mas eles me ensinaram muito. Quer ver um título que aprovariam para o seu artigo:

    “Flores, flores para las posaderas”, ou para o orifício que fica entre elas.

    Fernando Soares Campos
    Estrada de Jacarepaguá, 3145, BL 8/204,
    Rio de Janeiro
    (21) 3419-4979
    http://www.maltanet.com.br/mural/index2.php

    Responder
  • 4. Fábio Barreto  |  Junho 23, 2005 às 11:30 am

    Claro que o poder corrompe. Por isso o Estado deve ter poucos poderes nas mãos.

    Responder
  • 5. Tulio Vianna  |  Junho 23, 2005 às 12:13 pm

    Argumento simplista: O dinheiro corrompe. Logo devemos ter pouco dinheiro nas mãos…

    Responder

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