A escória dos estudantes de Direito do país

Junho 22, 2005 at 12:58 pm 17 comentários

Li pasmo na coluna do Gilberto Dimenstein a seguinte pérola racista produzida por alunos da Faculdade de Direito da USP:

“Se não fossem escravizados, os negros não teriam sido trazidos ao continente americano. Por pior que estejam aqui atualmente, estão melhores do estariam na África atualmente.”

Pior: este grupo de alunos, auto-intitulado “escória”, está na direção do tradicionalíssimo Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da USP, após vencerem a última eleição com o lema: “balada, bebida e putaria”.

A Folha publicou reportagem sobre o tema. A justificativa não poderia ser outra: “foi apenas uma brincadeira”, a mesma dada pelos incendiários do índio Galdino há alguns anos.

Para a classe média-alta parece haver uma nova excludente de culpabilidade não escrita “a brincadeira”. Mata-se por brincadeira, fere-se por brincadeira e se é racista só por brincadeira.

Não me surpreenderá se teses como esta forem defendidas em monografias de final de curso de graduação em direito com a complacência da brincadeira e da livre manifestação de pensamento.

Mas em um ponto eles têm razão: são a escória, não só do Largo São Francisco, mas dos cursos de Direito brasileiros. Escória, diga-se de passagem, eleita para representar a auto-proclamada elite dos estudantes de Direito do Brasil.

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17 comentários Add your own

  • 1. Eduardo Kulaif  |  Junho 22, 2005 às 7:26 pm

    Parabéns, Túlio! É exatamente o que disse. Achei excelente o uso da expressão “elite auto-proclamada”. Da mesma forma, ótima a comparação com a desculpa dada pelos algozes do índio pataxó.
    Bem, espero apenas não vê-los como futuros Ministros do STF, Magistrados ou legisladores, pois corremos o risco deles utilizarem a mais nova excludente que citou: a “brincadeira”. O pior não é o sujeito justificar que não se trata de uma mensagem racista por tratar-se sim de uma brincadeira. O pior, muito pior, é perceber que o irresponsável acredita que possa brincar com esse tipo de coisa; que tais “brincadeiras” sejam aceitáveis.
    Triste, também, é ver a petulância do sujeito ao responder aos questionamentos, demonstrando mais uma vez o elitismo auto-proclamado que o prof. Túlio citou. Em outras palavras o sujeito disse: “Sou muito bom. Passei no vestibular da Fuvest! Não tenho tempo nem paciência para ensinar sobre interpretação de texto.”
    Talvez arrume tempo para explicar-se perante um juiz de Direito, caso seja processado.

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  • 2. Thomaz A.  |  Junho 22, 2005 às 10:06 pm

    Não teria sido esse o mesmo texto publicado pela folha acadêmica da UFPR ? Faz alguns meses, mas o argumento é idêntico ao apresentado naquela publicação.
    Eu me pergunto como um sujeito desses conseguiu entrar na faculdade de direito da USP (ou UFPR). É argumento de quem não estudou o mínimo de história, que não tem o mínimo de raciocínio. Resumindo: é uma ameba.

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  • 3. Tulio Vianna  |  Junho 23, 2005 às 10:43 am

    Não me diga que também publicaram essa idiotice na UFPR? Não fiquei sabendo de nada, mas como concluí meus créditos do doutorado ano passado, passei este semestre inteiro em BH.

    Eu até admito que um sujeito desses entre na faculdade, pois não acredito tanto assim em Vestibular. Eu não consigo entender é como se mantém na faculdade. Será que os professores não dão um torra quando eles defendem estas teses na sala? Será que as coordenações vão se limitar a dizer que é uma opinião isolada de seus alunos? Que tipo de aluno de Direito estamos formando? Racistas, machistas, homófobos, classistas…

    As coordenações de curso têm que tomar uma posição mais séria enquanto é tempo…nada mais vergonhoso para uma universidade do que posturas como estas de seus alunos.

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  • 4. Cynthia Semíramis  |  Junho 23, 2005 às 11:16 am

    Esses alunos entram pra faculdade porque vestibular não mede posicionamento político e cobra conteúdo da forma menos polêmica possível. O problema está na faculdade, já que nem os professores nem a direção corrigem os alunos que falam besteiras. Aí fico pensando se os tais direitos humanos que essas faculdades tanto alegam que defendem na verdade não são apenas ações sociais pra exibir pra ONU e afins.Sei que tem gente séria trabalhando com direitos humanos, mas a posição da faculdade me parece que está mais pra jogo de marketing do que propriamente interesse pelo assunto. Não adianta a faculdade se dizer defensora dos direitos humanos se, na prática, ignora os abusos que ocorrem dentro dela.

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  • 5. Murilo Constantino  |  Junho 24, 2005 às 4:27 am

    Tivemos na UFPR o mesmo problema com um texto que utilizava em suma os mesmos argumentos desse da USP. Foi publicado na Folha Acadêmica que o Centro Acadêmico emite periodicamente e teve repercussões em diversos setores dentro e fora da faculdade. Qualquer aluno da faculdade pode escrever nessa publicação. Um aluno mandou o texto e acabou sendo publicado pelo CA. O caso teve uma violenta repercussão dentro e fora da faculdade e foi inclusive remetido ao Ministério Público. No final das contas não sei como acabou a história.

    Mas fato é que de maneira nenhuma o texto reflete o que a maioria da Faculdade pensa (embora infelizmente há pessoas que realmente acham que as coisas funcionam assim mesmo). E também eu acho que nem de longe a nossa política acadêmica se encontra na aparente decrepitude que a dos nossos colegas aí do Museu.

    Só sei que esse disco já andou tocando e eu assim, aacho, que tem um certo “filósofo” que anda plantando minhocas na cabeça desse pessoal. Sem nomes.

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  • 6. Tulio Vianna  |  Junho 24, 2005 às 10:40 am

    Obrigado pelos esclarecimentos, Murilo!

    De fato, artigo assinado em jornal universitário expressa tão-somente a opinião do autor. Pode-se questionar a política editorial que aprovou a publicação de um texto destes, mas daí a afirmar que esta é a posição do centro acadêmico há uma distância muito grande.

    O caso da USP é infinitamente mais grave, pois não é a opinião de um aluno isolado, mas uma “tese” de um grupo que foi eleito para o centro acadêmico. É possível que a maioria dos franciscanos tenha votado na “escória” por absoluta alienação política, mas ao elegerem-na deram-lhe a legitimidade para defender estas teses de extrema-direita, o que é preocupante. Alienação política quando manipulada por racistas é uma bomba a médio prazo, como a história do nazismo alemão comprova.

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  • 7. Jefferson Nascimento  |  Junho 27, 2005 às 3:58 am

    Como aluno quinto-anista do Largo São Francisco, gostaria de deixar consignado que a “tese” defendida pelo partido Escória, atual gestão do CA XI de Agosto, nem de longe representa a opinião da maioria dos franciscanos. A questão, aliás, como não podia de deixar de ser, está tendo intensa repercussão nas Arcadas, dada a abjeta idéia na qual se fundamenta, sendo de se esperar a devida apuração da devida responsabilidade dos autores. É o mínimo que poderia ser feito pela Casa por cujos bancos passaram Castro Alves, Rui Barbosa e Joaquim Nabuco.

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  • 8. Paulo  |  Junho 27, 2005 às 9:34 am

    Cadê o Ministério Público e a Direção da USP?

    Por que o Ministério Público de São Paulo não investiga o caso? Eu trabalhei com alguns casos de discriminação racial nos quais o Ministério Público simplesmente não apresentou a denúncia, após um fraco arrazoado e uma superficial investigação.

    Acho que a centralização do debate dos direitos humanos para o campo da segurança pública nos cega em detrimento a outras formas de violência social, como esta.

    Lembro-me também de vários casos de fraudes em provas universitárias levam os estudantes a serem punidos pelos Conselhos Universitários, pelo menos com advertência escrita, a fim de dissuadir os potenciais infratores. Racismo, crime tipificado na legislação brasileira, não seria também motivo?

    Um abraço

    Paulo

    Lembro-me que no caso do trote dos estudantes de medicina da USP, vários ou todos ficaram impunes… déjà-vu?

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  • 9. Milene C. Santos  |  Junho 29, 2005 às 12:23 am

    Como estudante do Largo São Francisco, eu lamento muito não só a eleição desses indivíduos para o Centro Acadêmico, como também que as besteiras que eles publicam normalmente tenham tido essa repercussão, manchando o nome da nossa faculdade e ofendendo pessoas em todo o país.
    O diretor da faculdade manifestou que a faculdade não pratica discriminações aos negros, o que é verdade. Acontece que o processo de eleição dos membros do CA é democrático, os alunos que os elegeram é que deveriam ter dores de consciência.
    É muito forte e forçado dizer que se criou uma nova “excludente de culpabilidade”, eu duvido que nas outras faculdades de direito besteiras do tipo não circulem em impressos que são destinados apenas aos alunos.
    Quanto ao caráter elilista auto-proclamado, eu concordo, apesar de demonstrarmos alguma espécie de competência através do vestibular isso não nos dá o direito, nem a qualificação para, nos auto-proclamarmos melhores que os demais.
    É uma pena que os bons alunos que existem na faculdade não tenham tio tanta repercussão, porque eles realmente são a Escória.

    Responder
  • 10. Tulio Vianna  |  Junho 29, 2005 às 10:17 am

    Milene,

    Os bons alunos da São Francisco estão aparecendo também, quando vêm a público rechaçar os argumentos da Escória.

    Veja, por exemplo, este trecho da exemplar carta escrita pelos franciscanos Júlio César Pereira (4NI) e Boris Calanzas (4DP), publicada originariamente na coluna do Gilberto Dimenstein:

    Sabendo que a população africana está, atualmente, nas condições em que está devido aos séculos e séculos de exploração branca, dizer que a escravidão salvou os negros é, além de um descaramento sem medida, uma das muitas e vis maneiras que o Racismo encontra para mostrar os seus dentes, sendo que, desta vez, os autores da “teoria” sequer fizeram uso das “sutilezas” do Racismo velado, isto porque, como dissemos, estão protegidos atrás da máscara própria dos covardes – a piada.

    O que me assusta é que os “piadistas” estão em maioria. Os acadêmicos sérios estão calados e a sociedade espera deles uma resposta dura às bobagens que foram panfletadas por seus “coléguas”.

    Responder
  • 11. Cynthia Semíramis  |  Junho 29, 2005 às 10:48 am

    Milene, ao dizer que “eu duvido que nas outras faculdades de direito besteiras do tipo não circulem em impressos que são destinados apenas aos alunos”, você está implicitamente acobertando as idéias defendidas por publicações como a Gazieta. É como se dissesse: se todo mundo faz, a conduta é socialmente aceitável, e não tem problema em fazer isso.

    Essa postura é prima da que está se desenvolvendo na comunidade do Largo de São Francisco no Orkut, onde boa parte do pessoal afirma que a discussão é idiota.

    Quem escreveu as tais teses foi racista, homofóbico, anti-histórico, e não reconhecer ou minimizar isso é dar mais espaço para essas pessoas se manifestarem. Ou seja, é ser conivente com o absurdo.

    Pra finalizar, acompanho com certa regularidade os jornais de alunos aqui de Belo Horizonte, já vi várias brincadeiras pesadas com professores, mas ainda não vi teses racistas ou homofóbicas como essas da Gazieta sendo defendidas.

    Responder
  • 12. Milene C. Santos  |  Julho 3, 2005 às 9:53 pm

    Cynthia,

    Eu não concordo de forma alguma com nada que aquele partido diz ou faz! Lamentei a repercussão porque alunos como esse envergonham não só a mim, mas a toda a sociedade, inclusive todos os alunos que como eu amam aquela faculdade.
    Só que senti no trecho do professor Túlio, e em alguns comentários subseqüentes, que surgiu uma oportunidade para eles manifestarem sua repúdia à minha faculdade, “que se auto-intitula a elite desse país”.
    Não conheço muitas faculdades de direito, mas sei que existem grupos assim na PUC-SP e no MACK, mas como nós temos mais espaço na mídia, algumas pessoas se aproveitam para apontar nossos problemas como se fosse um caso isolado…(sem falar especificamente disso professor).
    Professor, o senhor tem razão quando diz que os piores alunos estão no comando, é que os demais estão preocupados demais trabalhando e estudando para assumir o Centro Acadêmico como responsabilidade. Mas acho que isso irá mudar na próxima eleição. Minha classe mesmo fundou um partido chamado “Resgate Arcadas”, com uma proposta muito legal que reviver os bons tempos da faculdade no que diz respeito aos debates, à conscientização política… Espero que eles ganhem na próxima!
    Ainda quanto à omissão dos alunos: é tão deprimente, que é difícil responder! Ninguém os leva a sério…
    Até mais e obrigada pela consideração de responder!

    Responder
  • 13. Tulio Vianna  |  Julho 3, 2005 às 11:46 pm

    Milene,
    Torço para que o “Resgate Arcadas” ou outro grupo sério retome a direção do Centro Acadêmico. Talvez com este vexame nacional, proporcionado pela Escória, seus colegas acordem e votem com um mínimo de seriedade.
    Tenha certeza de que não tenho qualquer repúdio à USP, muito pelo contrário. Apenas afirmei que vcs se auto-intitulam a elite acadêmica do país, pois isto de fato ocorre. Todo aluno da USP considera que estuda na melhor faculdade do Brasil. Assim como aqui na minha terra todo aluno da UFMG acredita que estuda na melhor faculdade de Direito de Minas, pois foram aprovados no Vestibular mais concorrido. São opiniões correntes e não pretendo aqui discutir se estão corretas ou equivocadas. A questão é: se se julgam os melhores, devem procurar agir como os melhores. Não podem agir como alienados imbecis que envergonhariam as faculdades mais provincianas do Brasil.

    Responder
  • 14. Cynthia Semíramis  |  Junho 22, 2005 às 4:30 pm

    Vergonha: alunos da Faculdade de Direito da USP defendem escravidão

    Túlio me mandou um email com dois links do LauraNews falando sobre racismo na Faculdade de Direito da USP. Pensei que fosse piada de mau gosto, mas fui pesquisar e infelizmente não é piada.
    Estudantes de Direito defendem a escravidão foi a colun…

    Responder
  • 15. Juliana Ferraz de Abreu  |  Agosto 10, 2005 às 9:24 pm

    Professor Túlio,

    Não sei se devo lhe parabenisar pelas belíssimas verdades que escreve ou prestar “meus sentimentos”, uma vez que sinto morta uma parte dentro de você, ao ler aquela citação.Não está sozinho.Sou acadêmica na Faculdade Metodista Isabela Hendrix em Belo Horizonte.O formalismo, a postura de alguns estudantes me envergonham, de modo que em minha monografia trato do tema – A postura e o formalismo dos operadores do Direito face à ética profissional:Uma análise crítica- reflexiva, sob a visão alternativista do Direito. Enviarei um exemplar tão logo à defenda. Continue lutando contra a postura anti- ética deste futuros Dotores da vergonha e da tirania.Quem sabe, um dia ainda os veremos nos jornais, desmascarados, desnudados: NAS PÁGINAS POLICIAS, DEFENDENDO TRAFICANTES DE DROGAS. ORA, JÁ QUE SÃO “FAVORÁVEIS AO TRÁFICO DE ESCRAVOS”, QUE PROCUREM OS FERNANDINHOS…E CERTAMENTE A SOCIEDADE CULTURA E POLITICAMENTE ENGAJADA IRÁ CHICOTEÁ-LOS, NÃO COM O INSTRUENTO COMO ERAM OS NEGROS HÁ ALGUNS ANOS ATRAS, MAS COM OLHARES, PALAVRAS, DENÚCIAS.
    Professor Túlio, vamos relembrar Samosota e a sátira: Ria destes palhaços.
    Abraços de uma acadêmica que não se entitulará Advogada, mas lutará com todo fervor contra os anti-éticos.
    “Se podes olhar vê. Se podes ver repara” . Jose Saramago

    Responder
  • 16. SAMUEL LUCAS  |  Junho 6, 2006 às 10:46 am

    LEGAL ESTE BLOG…

    FIZ VESTIBA PRA DIREITO NA PUC- SÃO GABRIEL….POR CASO VC SABE QUAL A PONTUAÇÃO EXIGIDA??SE SOUBER MAIS OU MENOS, POR FAVOR MANDE-ME UM E-MAIL…

    OBRIGADO….

    Responder
  • 17. Ediene Moraes  |  Outubro 18, 2006 às 10:24 pm

    É realmente absurda a idéia defendida por esses que se dizem acadêmicos de uma universidade tão tradicional como USP.As afirmações desses “acadêmicos” não apenas denigre a imagem dos estudantes de Direito do país como da própria instituição.Tomara que esses comentários burros n se repitam novamente

    Responder

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