Quem precisa de armas?

Outubro 18, 2005 at 9:16 am 8 comentários

O discurso armamentista é o discurso do medo.

Estatisticamente é muito mais provável alguém morrer em um acidente de trânsito do que de tiro, mas, quando se dirige à noite nas grandes cidades, teme-se mais o tiro que a colisão.

O discurso armamentista é o discurso da defesa do patrimônio em detrimento da vida.

Estatiscamente é muito mais provável alguém ser morto em um roubo se estiver armado. Na maioria absoluta das vezes, a vítima desarmada perde tão-somente seus bens. Mas os defensores das armas valorizam mais o patrimônio que a vida.

O discurso armamentista é o discurso da emoção em detrimento da razão.

Quem invade uma residência para cometer um crime, geralmente o faz em dupla ou em bando e toma a vítima de surpresa. Não basta ter uma arma em casa para exercer o “sagrado direito à legítima defesa”. É necessário também ter a frieza para, após uma descarga de adrenalina típica de quem foi tomado de surpresa, desviar-se dos tiros de dois ou mais agressores e alvejá-los com precisão em órgãos vitais. Tudo em questão de segundos e sem a possibilidade de recarregar a arma.

O discurso armamentista é o discurso do super-herói.

O inconsciente coletivo há séculos convive com o arquétipo do herói: do mocinho que vence o bandido, do “cidadão de bem” que vence o “marginal”, em suma, do bem que vence o mal. A mass media exarcebou este arquétipo criando a figura do super-herói nos desenhos animados que doutrinam as crianças muito antes de começarem a ler. Não são mais figuras humanas que, como nas velhas histórias, poderiam se ferir ou mesmo morrer. São Rambos, capazes de desviarem das balas de dezenas de oponentes e, mais recentemente, Neos capazes inclusive de fazê-las pararem no ar. Na vida adulta, muitos homens sentem a necessidade de se auto-afirmarem tendo uma arma municiada em casa, enquanto aguardam o dia em que poderão representar seu personagem heróico.

O discurso armamentista é o discurso da imprudência.

Para se ter a mínima chance de reagir com êxito a uma agressão é necessário manter a arma permanentemente municiada e em local de fácil acesso, como uma mesa de cabeceira. Locais de fácil acesso, geralmente também o são para crianças e para pessoas enfurecidas durante brigas domésticas. A arma que defende a família é a mesma que a mata. Ou na poesia de Augusto dos Anjos: “a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

O discurso armamentista é o discurso da falsa prevenção.

Um criminoso dificilmente irá deixar de invadir uma residência por saber ou cogitar que os moradores estão armados. Muito pelo contrário, é possível que se sinta atraído por subtrair uma arma que pode ser vendida com relativa facilidade no mercado paralelo. O crime é uma “profissão” de risco e uma possível reação da vítima com arma de fogo não inibirá a ação de quem enfrenta no seu dia-a-dia não só os tiros da polícia, mas de grupos de extermínio e de outros criminosos.

O discurso armamentista é o discurso da extrema direita brasileira e mundial.

Nos EUA, a indústria armamentista elegeu Bush Jr. que invadiu o Afeganistão e o Iraque em fantasiosa legítima defesa de seu país ameaçado.

No Brasil, apóiam o desarmamento instituições reconhecidamente reacinonárias como a Revista Veja e a União Democrática Ruaralista (UDR), bem como alguns dos expoentes da extrema direita nacional como o Deputado Federal Enéas e o pseudo-filósofo Olavo de Carvalho.

O discurso armamentista é o discurso do “achismo” em detrimento do conhecimento científico.

Não há qualquer estudo científico que indique que armas em residências representem maior proteção contra o crime. Os argumentos dos defensores das armas baseiam-se em especulações do tipo “e se alguém invade a sua casa…” . Os argumentos dos defensores do desarmamento são frutos de pesquisas sérias de criminólogos e sociológos no Brasil e no mundo.

É imprenscindível ler uma das melhores pesquisas científicas já realizadas sobre o tema antes de reproduzir os “achismos” de quem só pensou a questão após o anúncio do referendo.

Leia também: A quem interessa o desarmamento civil?, publicado aqui em 10/10/05.

Visite também: Referendo SIM

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Seminário de Iniciação Científica da PUC Minas Discursos Sediciosos nº14

8 comentários Add your own

  • 1. Ponto 50  |  Outubro 18, 2005 às 10:31 am

    Presente! rsrs

    Responder
  • 2. Ricardo Moura  |  Outubro 18, 2005 às 9:23 pm

    Somente os exércitos!!!
    E ainda sim Segundo A.Einstein se os homens se recusassem a alitar-se em Exércitos certamente ficaria apenas seus líderes brigando feito crianças!
    Enfim…”Se eles lessem poesia seriam mais sábios…”
    Obrigado

    Responder
  • 3. Vinícius Brandão  |  Outubro 19, 2005 às 9:51 am

    Interessante o seu ponto de vista Túlio, mas tenho que descordar.

    Eu simplesmente quero ter o DIREITO de ter uma arma em casa, apesar de não pensar em ter uma. Ao votar sim, o cidadão está abrindo mão desse direto, assumindo perante o Estado sua incapacidade e deixando que o Estado decida por ele se ele pode ou não ter uma arma. Exatamente igual acontecia nos Estados absolutistas onde o soberano decidia o que os cidadãos deviam fazer ou deixar de fazer. Hoje querem nos convencer de que não é seguro ter uma arma, de que a proibição será para o nosso bem… e amanhã, de qual direito nos privarão?

    Além disso, grande parte das pessoas que possuem uma arma em casa não possui registro dessa arma, geralmente fruto de herança familiar. Isso acontece porque a legislação vigente sobre o porte de armas já é bastante restritiva, sendo que não basta a pessoa querer ter uma arma, para tanto ela deverá preencher várias exigências legais, feitas justamente com o intuito de que pessoas despreparadas não adquiram uma arma.

    Se hoje, existindo o comércio legal de armas, muitas pessoas já possuem uma que não é legalmente registrada, o que as impdediria de adquirir uma no mercado negro, caso a venda seja proibida?

    O fato de que ter uma arma em casa não trás segurança, pelo contrário (e nisso eu concordo com você), não justifica que o cidadão tenha de ser privado de sua liberdade de tê-la.

    Isso sem mecnionar que, bem ou mal, a indústria armamentista emprega milhares de pessoas, e como se sabe emprego no Brasil hoje é quase um luxo.

    Por tudo isso e outros motivos mais é que eu votarei NÃO!!!!!!

    um abraço.

    Responder
  • 4. Márcio  |  Outubro 19, 2005 às 10:12 am

    A questão não é simples.Agora,a guerra do emocionalismo continua nas duas campanhas e o embate Veja x Globo!!Eu já tenho posição definida,mas é difícil ,não dá pra falar com toda certeza que sim ou não,efetivamente tem quem precise,como pessoas ameaçadas ,agentes públicos que estão inseridos no resultado do referendo,etc.E também tem muita gente que não precisa,mas acha que precisa ter e tem um “cabeção”.É verdade,o ser humano mata e tudo pode matar.A arma de fogo potencializa.Pra finalizar,eu acho interessante que o estatuto seja conhecido por todo mundo.O Estato foi um bom instrumento para acabar com a banalização das armas mas,ainda tem muitas incoerências,como a aquisição de armas pelas empresas privadas e detrimento e integrantes de órgão públicos que caso o sim ganhe,não poderão.Mas qualquer o resultado,tem que haver revisões para a regulamentação de alguns coisas no estatuto.Falou galera!Abraços!

    Responder
  • 5. Márcio  |  Outubro 19, 2005 às 10:18 am

    Retificando!hahahaha
    O Estato foi um bom instrumento para acabar com a banalização das armas mas,ainda tem muitas incoerências,como a aquisição de armas pelas empresas privadas “em” detrimento “dos” integrantes de órgão públicos que caso o sim ganhe,não poderão.Mas qualquer o resultado,tem que haver revisões para a regulamentação de alguns coisas no estatuto.Falou galera!Abraços!

    Responder
  • 6. Henrique  |  Outubro 19, 2005 às 10:45 am

    Caro Túlio,
    Concordo com o Vinícius Brandão. A questão não tão simples como você expôs. Em primeiro lugar, não acho correto definir o voto no NÃO como “o discurso armamentista”. O NÃO não irá promover nenhuma corrida armamentista. Como bem dito pelo Vinícius, o NÃO simplesmente irá resguardar um DIREITO do cidadão de poder adquirir uma arma de fogo, diga-se de passagem, cumprido vários requisitos.
    O argumento do perigo doméstico gerado por uma arma de fogo é algo muito pequeno diante das consequências do resultado do referendo. E ao contrário do que você disse, o fato de um cidadão ter uma arma não o obriga a reagir a um assalto, mas lhe dá a opção ou oportunidade de fazê-lo. Lembro também que os bandidos de hoje não invadem residências e levam apenas objetos e valores, mas estupram e matam.
    Não se pode querer impor valores a uma pessoa. Não se pode obrigar um pai e ver sua filha sendo estuprada enquanto ele fica ali sentado, inerte. O que está em questão é o fim de um direito do cidadão.

    E mais, para aqueles que defendem o SIM, será que tem alguma dúvida de que o comércio ilegal irá aumentar? Até criança compra arma em favela. É extremamente fácil comprar uma arma ilegal. Basta querer. O resultado vai ser o mesmo da proibição do alcool nos EUA. Vai surgir a “máfia da arma”.
    E só pra finalizar, ao contrário do que muita, muita mesmo, gente pensa, o fato de o NÃO ganhar permitirá as pessoas de sairem com suas armas na cintura!!!

    Responder
  • 7. Marcelo Amorim  |  Outubro 21, 2005 às 3:10 am

    Como assim o discurso armamentista é o discurso do achismo?
    Acho que você deveria dar uma olhada nos números australianos no site http://www.aic.gov.au.

    As estatísticas mostram que o recolhimento de armas naquele país não diminuiu o número total de mortes, roubos, estupros e demais crimes.
    As mortes por arma de fogo já vinham diminuindo desde 1969, o recolhimento de 650 mil armas ocorreu em 1996. Ou seja, a queda no número de mortes por arma de fogo decorreu de outras variáveis que não o recolhimento de armas. Talvez maior eficiência das polícias e instituições jurídicas – coisa que não existe no Brasil.

    O número de homicídios na Austrália atingiu picos em 1999 e 2000, lembrando que o crescimento demográfico anual médio foi de apenas 0,05%, o que não justifica o aumento de mortes.

    Responder
  • 8. junior  |  Janeiro 18, 2008 às 2:29 pm

    eu tenho 22 anos e tenho o curso de segurança particular eu posso tem um porte de arma.

    Responder

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